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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Publicação sobre o capitalismo - Miguel Tiago




Todo o capitalismo é corrupção, legal ou ilegal, é sempre a apropriação de valor criado pelo trabalho dos outros.
Qual é o capitalista que não "saqueou" um país ou vários?

Quando os donos dos supermercados exploram os trabalhadores aqui mas levam o dinheiro para paraísos fiscais para não pagar impostos, não nos estão a saquear?

Quando os donos das grandes multinacionais conseguem benefícios fiscais que seriam suficientes para construir milhares de escolas, hospitais ou teatros, não estão a saquear?

Quando os banqueiros desviam milhões para empreendimentos da Isabel dos Santos, do Álvaro Sobrinho, do Bataglia, da ESCOM, ou do Grupo Espírito Santo ou de qualquer grande construtora, pagos com o suor dos portugueses e com o endividamento da república, não estão a saquear?

Quando os fundos de imobiliário e os especuladores concentram a propriedade imobiliária, com financiamentos nos bancos pagos por nós, mas nos expulsam das nossas próprias cidades, não estão a saquear?

Quando as consultoras avalizam contas de bancos escondendo os seus buracos e aconselhando esquemas de engenharia fiscal que chegam a envolver dezenas de off-shores, não estão a saquear?

A comunicação social está a concentrar o fogo numa figura que deve ser denunciada. Quem espolia o seu povo deve ser julgado por isso e estou convencido de que assim será. Mas é muita hipocrisia, a mesma comunicação social que em Portugal faz fretes a todos os corruptos do país, que apoia governos que privatizam, roubam, entregam o país às mãos de troikas, etc., a mesma comunicação social que se faz pagar pela EDP, pela banca e pelas grandes construtoras e empresas de distribuição, a mesma que louva o emplastro do palácio de Belém, a mesma detida por um magnata que veio da política (Balsemão), a mesma comunicação social que se curva perante as privatizações criminosas e ataca todos os que contra elas se coloquem, a mesma comunicação social que esconde a lista de avençados do BES, os resultados dos panama papers, vir agora fazer-se de espantada porque há uma capitalista africana que não chegou lá de forma honesta.

Será notícia, isso sim, o dia em que um capitalista o seja sem ter saqueado ou espoliado ou explorado ninguém. E já agora, que não tenha ganho o Euromilhões que, mesmo assim, ao pé destas fortunas é peanars.

Miguel Tiago, 20.janeiro.2020

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

"Só a banca nas mãos do povo não rouba o país"

INTERVENÇÃO DE MIGUEL TIAGO NA ASSEMBLEIA DE REPÚBLICA

Senhor Presidente,
Senhores Deputados,

Desde 2012 o PCP alerta para a situação do Banif, para os 1100 milhões de euros de capitais públicos envolvidos na sua recapitalização e para a opção do Governo PSD/CDS de não assumir o necessário controlo público do banco que a posição claramente maioritária do Estado permitia e aconselhava.

O Governo PSD/CDS não serviu nem protegeu os interesses dos clientes do Banif, os seus trabalhadores, nem as economias das Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores, nem os milhares de emigrantes cujas poupanças estão depositadas no banco.

O anterior Governo PSD/CDS comprometeu o Estado e dinheiros públicos no BANIF sem pedir sequer responsabilidades àqueles que lucraram à conta da má gestão.

As responsabilidades políticas do Governo PSD/CDS são agravadas pelas afirmações de Passos Coelho e dos responsáveis das finanças que insistiam num alegado bom negócio para os cofres do Estado. Na realidade estavam a apoiar a fundo perdido um banco privado e falido, ocultando a realidade com a ativa cumplicidade do Banco de Portugal, (talvez por isso tenham feito tanta força para a recondução do mesmo Governador que dizia que o empréstimo ao Banif renderia 10% em juros a favor do Estado – decerto para nenhum outro poder descobrir o buraco.

A par das opções do Governo PSD/CDS, este processo veio expor a incompatibilidade insanável entre a defesa do interesse nacional e as regras e imposições da União Europeia ao impedir a integração do negócio do Banif no sistema público bancário e ao forçar a concentração capitalista. Impedimentos que o Governo acata, mas o PCP não.

Estamos perante um verdadeiro crime económico, cujo autor moral é o Governo PSD/CDS, resta saber com que cobertura do Presidente da República, Cavaco Silva. Crime económico contra o país que remete agora para o uso de recursos públicos para salvar depósitos que foram delapidados num contexto em que tal delapidação podia ter sido impedida se o Governo PSD/CDS tivesse assumido a sua posição dominante no capital do Banif. À velha maneira do que fazia o fascismo, PSD e CDS colocam dinheiro público numa empresa privada, não para controlar a empresa, mas para que a empresa privada controle o dinheiro público.

Sr Presidente
Srs Deputados

É cada vez mais claro que a regulação e supervisão bancária apenas servem para alimentar ilusões de uma intervenção pública, aparentemente independente e disciplinadora das ambições e da especulação financeira do capital monopolista. O Banco de Portugal é o certificado de qualidade num produto apodrecido.

O PCP não aceita salvar bancos privados com o dinheiro dos portugueses e este desfecho torna-se ainda mais inaceitável quando os milhares de milhões de euros servirão, no essencial, para assegurar a transferência dos melhores ativos e a carteira de negócios do banco para um grupo financeiro privado e estrangeiro – Grupo Santander – quando seria do interesse do País, dos trabalhadores e dos depositantes que fossem integrados no sistema público bancário.
A situação que está criada no BANIF confirma a necessidade do controlo público da banca que o PCP tem vindo a exigir há anos. Uma vez mais é evidente a quem serve e a quem não serve a gestão privada da banca. A estabilidade do sistema financeiro é demasiado importante para que possa ficar dependente da voragem dos grandes acionistas privados.

A situação demonstra que um efetivo controlo público da banca é absolutamente necessário. Não apenas por força deste processo, mas da instabilidade geral que não permite colocar de parte que este seja apenas mais um episódio da crise patente no sistema bancário. Não sendo o controlo público, por si só, a solução para todos os problemas da banca, é hoje mais evidente do que nunca de que só este permite as soluções necessárias.

O PCP chama ainda a atenção para o facto de a situação do Banif, tal como já se tinha verificado com o BES, ser mais um elemento que comprova o embuste propagandístico que significou a anunciada “saída limpa” e o verdadeiro conteúdo da acção do Governo PSD/CDS e da troika. É igualmente, mais um elemento que comprova que PSD e CDS estiveram ao serviço dos senhores do dinheiro: fizeram questão de condicionar as opções, tentando vender a TAP já fora do prazo e fizeram tudo para que o Banif fosse entregue ao Santander por falta de opção. Com as suas opções, limitaram duramente as de quem viesse a seguir.

O voto contra do PCP é um voto contra a política que salva bancos enquanto sacrifica pessoas. É um voto contra as imposições da União Europeia que são contrárias aos interesses dos portugueses. É um voto contra os privilégios dos banqueiros, que usam e desviam o dinheiro das pessoas e chamam o Estado para pagar os seus crimes, enquanto circulam livremente pelo país em vidas de luxo. É um voto contra a opção de cortar nos salários, nas pensões, na segurança das populações, na Justiça, na Cultura, na Educação, na Saúde, para pagar aventuras de banqueiros. O sistema financeiro tem de estar ao serviço das pessoas. Para isso, as pessoas têm de controlar os bancos. Só a banca nas mãos do povo não rouba o país.

23 Dezembro 2015